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05/01/2007

Panema



Um dos maiores temores dos seringueiros é pegar panema. Ficar empanemado, perder a sorte para caçar, para agradar as mulheres.

E uma das maneiras mais conhecidas de se pegar panema é desrespeitando a caça. Tendo morto o animal que vai comer, o caçador deve tratar o caçado com o devido respeito, não pode arrasta-lo indevidamente e, depois de come-lo, deve cuidar para que seus ossos não sejam deixados em lugar de passagem, onde possam ter contato com fezes de outros animais, ou onde mulheres grávidas ou menstruadas possam passar por cima deles.
Se o fizer, é panema na certa!


Existem várias receitas para curar panema: uma poderosa prevenção é a vacina do sapo, utilizada pelos índios.

Entre outras providências, o empanemado pode ser defumado -ele e sua espingarda, porque a espingarda também pega panema- como fez Jovina no capítulo de hoje, pode tirar o enrasco tomando um banho de espuma com a casca de um pau conhecido como timbaúba, ou atirar contra um paxiubão, passar a espingarda entre as pernas e sair sem olhar pra trás.

No dia em que se vai recorrer a um dos métodos para tirar o enrrasco, deve-se sair de casa sem dirigir a palavra a ninguém, e manter silêncio absoluto, até que a operação tenha sido completa.

Existe um método que se considera muito perigoso e pouco recomendável, porque pode danificar um inocente: quando o caçador sabe quem o empanemou, ele faz o retrato do suspeito modelado na barriguda, depois atira contra o retrato, por entre as pernas. No que o tiro acerta o retrato, o atingido adoece, podendo até morrer.

Elson Martins nos manda uma receita pra tirar enrasco que lhe foi ensinada por um seringueiro. vejam o que ele conta:

RECEITA ENVIADA PELO JORNALISTA ELSON MARTINS

O seringueiro Otávio Luciano da Silva, 76 anos, nascido no seringal Restauração, alto rio Tejo, no Vale do Juruá, cortou seringa durante 57 anos a partir dos nove de idade. Agora vive aposentado pelo Funrural na cidade de Thaumaturgo. Em fevereiro, eu o entrevistei e quis saber se conhecia algum remédio contra “panema” (má sorte na caça). Ele respondeu que sim e fez questão de ensinar:



“Pega-se o rabo do quatipuru roxo e o chifre esquerdo de um veado; nove penas da nhambu azul, da asa esquerda; a segunda malha da jabota; cinco penas do mucumbu (rabo) do jacamim; nove pimentas malagueta; nove ramos de tipi da mata e três catingas de caititu. Pega-se tudo isso e põe numa vasilha.

Num dia de sexta-feira em que o cabra for pro mato, ele deve levantar às seis horas sem falar com ninguém. Deixa tudo preparadinho no lado que ele vai pra mata. No dia seguinte leva a vasilha com os ingredientes, toca fogo e põe umas palhinhas da palmeira Jarina que é pra fazer fumaça.Então ele defuma a arma, a roupa todinha, aí deixa lá a vasilha sem olhar para trás.

Se ele não matar numa primeira vez, no outro dia ele mata. A receita serve pra todos os bichos: do miúdo ao grande”.
br/>Elson Martins
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Glória Perez

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