01/11/2006
ADÁLIO PEREIRA DE OLIVEIRA, SOLDADO DA BORRACHA
A historiadora Xenia Barbosa, da Universidade Federal de Rondônia, faz um trabalho muito interessante de recuperação da memória dos soldados da borracha. Segue um pequeno trecho de uma de suas entrevistas:
"Eu saí para cá em fevereiro de 1943, por causa da guerra de 1939. Nós viemos contratados como soldado da borracha para o serviço para o americano. Antes eu morava no Ceará, em Cascavel, era uma cidade boa, rica e muito produtiva.
A pessoa naquele tempo tinha era que obedecer! Eu tava casado e não queria vir, mas tinha que obedecer. Mesmo casado tinha que deixar tudo! E eu deixei minha mulher com seis meses de casado, mas ou ia pra guerra ou vinha pra borracha.
Pra vim pra cá tive que vender tudo, porque o que já se tinha de roupas, calçado, qualquer luxo que a gente tivesse, um relógio, uma aliança, não podia trazer nada. E aí eu recebi uma mala de carregar nas costas com uma rede pequena, uma coberta pequena, um caneco de esmalte e um par de alpercata de rabicho. Uma calça de mescla e uma camisa de um pano ordinário que nós chama americano. Assim era a farda. E um chapéu de palha.
Cheguei aqui no Amazonas. Primeiro eu cortei muita lenha pra navio. Naquele tempo do atraso os navios tudo era a lenha. Esses navios de convés baixo era tudo a lenha. E eu cortei muita lenha!
Faziam a gente vim pra seringa como à guerra, porque se não fosse para seringa ia pra lá. Na idade que eu tava era convocado mesmo! Eu vim obrigado, vim com medo da guerra.
E eu fui pra uma colocação de seringa chamada Rarizal, cortar seringa. O serviço é um pouco enrascado! Nos primeiros anos a pessoa nunca faz nada, sempre apanhando porque o serviço é um pouco dificultoso! E ainda tem um tal de paludismo aqui, que hoje em dia é chamado de malária, quando agarrava a pessoa, o camarada tremia uma hora, bolando assim no meio da mata. E se ele não fizesse a borracha no fim do mês o patrão também não vendia. Ou ele morria com a malária ou de fome. A sujeição era essa!"
Beijos pra vcs,
Bianca
Postado por Bianca Freire Medeiros
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